Está aberta a época dos festivais. Nunca fui muito de festivais, se existe alguma onda que caracterize as pessoas que gostam de ir para recintos abertos, com sal na pele, pó no cabelo enriçado e solas dos pés negras da terra argilosa... Cheiro a entremeada no cabelo, a farturas na roupa( obrigada Bernardo pela deixa...)e molho de alho do quebab do concerto de ontem seco no vestido.Na altura que tinha idade para estas coisas não o fiz. O ano passado foi o primeiro em que me estreei no sudoeste. Adorei os concertos, mas não alinhei no acampamento no local. Há qualquer coisa demasiado cigana que dispenso,no facto de acampar para ir a 3 ou 4 dias de concertos seguidos. Adoro vir da praia e tomar o meu banhinho antes de ir para o sitio onde me vou "consporcar".
Mas a onda festivaleira de hoje não me identifica , mais que tudo porque a acho desprovida da genuinidade e do romanticismo de outrora. Hoje os "festivaleiros" anunciam-se como hippies da era moderna, mas falta-lhes a essência dos verdadeiros jovens da época de woodstock. Nessa altura brotava deles uma semente criativa que vinha a florescer em valores tão elevados como a paz, o amor e a fraternidade, não á guerra e sim á natureza, a época do verdadeiro flowerpower,do make love no war. Respirava-se o aroma de uma geração profundamente imbuída dos seus valores e ideais, em que a sua forma de estar e vestir ( ou não vestir) era apenas uma continuidade da sua forma de pensar. Nos dias de hoje, á margem do verdadeiro Woodstock vão surgindo festivais de verão.São transversais na promessa de bandas de sucesso, programas em dias seriados e bem organizados para agradar a gregos e a troianos e enchem-se de multidões estereótipadas pelo tipo de musica que ouvem. Mas falta-lhes a tal essência. a Essencia de quem acredita nos valores que a musica transmite, de quem partilha mensagem que ela veícula. Hoje os meninos dos festivais, não são mais que meninos com casa, carro e vidas pouco frugais, muitos ainda a viver na dependencia dos pais,sem pretensões a uma vida independente ou de liberdade, em nome do conforto, mas que se transformam para irem ao sumol summer fest ou ao sudoeste.Eles e elas. Tiram o salto alto, calçam a havaiana, despem o vestido e vestem os calçoes rasgados e compram no chiado tee-shirts rotas com ar hippie chic ou na billabong, para estarem enquadrados na "onda festivaleira".Vão ao solário antes e com sorte fazem rastas no cabeleireiro, se for preciso. São uns grandas malucos com ipads e iphones, e decidem fazer um piercing na lingua ou uma tatuagem como simbolo da maluquice daquele verão.
Ontem estive num concerto destes. Ou quase. Gostei do que ouvi, gostei muito da companhia e pouco mais. Há momentos em que uma multidão consegue estar em sintonia, de tal forma que a experiencia pode ser arrepiante. Senti isso em U2 há uns anos.Ontem a minha multidão não era minha, não era nossa. Cada um estava por si. Faltava-nos a tal essencia de uma geração de ideais comuns reunida. Faltava a vontade genuina de quem paga para ver aquele musico e a sua voz e a forma como interage com o publico.Faltavam os isqueiros e as chamas a iluminar a escuridão. A lua pôs-se sobre o palco. Ao som de uma musica especial podia ter sido um dos momentos altos da noite. Penso que menos de um terço das pessoas que estavam ali se apercebeu disso. Ao invés disso,os outros dois terços estavam preocupados em regular a focagem da camara do telemovel ou em filmar a musica toda para minutos mais tarde porem no youtube ou no facebook com o tag " Colplay on fire!!!".Quando se preocupam em curtir um pouco o concerto, em assimilar todas as sensações que um espectáculo destes proporciona, estão no "encore", mas ficam felizes porque conseguiram filmar tudo e podem ver o concerto em "repeat" através do ecran do seu telemovel, aliás, onde através do "instagram" do iphone registaram a ultima foto com filtro da grande banda.... é desta massa que a onda festivaleira actual é feita.
Fica registado um momento especial nesta musica especial...registado não no i-phone, não no filme, nem na foto, mas no melhor sitio onde guardo as melhores das memórias que já vivi, o único que me permite revivê-las apenas com um fechar de olhos, com todas as cores, cheiros, sabores e todas as sensações que me transmitiram...a minha cabeça!
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