Há coisas na vida pelas quais sentimos tal encanto ou pelas quais somos seduzidos de tal forma, que a nossa passagem pela terra não faria tanto sentido se dela não participássemos um dia. Coisas que vamos adiando, ano após ano, sob desculpas rafeiras , deixando-nos o suave amargo de boca da gente preguiçosa que vê o tempo da vida, como areia, a escapar-nos pelas mãos e percebe que tudo assim passará passivo e sem causar impacto na nossa vida, sem riscos, mas também sem beneficios ou histórias para contar. somos todos assim, por vezes. É por isso que é tão bom correr atrás daquilo que nos apaixona, nos deixa a boca seca e o coração acelerado, e ás vezes nos tira o sono mesmo em noites de exaustão.Sim, falo da pica, do tesão das pequenas coisas que nos fascinam, encantam, captam e fazem sentir-nos mais vivos, mais humanos, mais participativos e com o sangue mais quente que a imensidão de gente viscosa e morna que conhecemos. Falo do brilho do olhar, do estalar dos dedos e da gargalhada que se solta. Falo do olhar perdido e do sorriso pateta, falo de paixão e falo do poeta. Falo de coisas sem fim que nos fazem vibrar e que estamos sempre a adiar, e que no fim da linha nos devolvem a melhor gargalhada que podiamos sonhar, o sono mais descansado, o tal brilho no olhar baço e distante, com que olhamos para tudo o que é desinteressante e nos rodeia. Tenho tanto isto.Tenho tanto a lagrima no olho que se solta, fácil fácil, quando vejo um por do sol na minha cidade a morrer no rio. o olhar que fica estático a beber as danças dos outros e não as minhas, porque as minhas não arranjo eu tempo para as fazer, tempo esse que digo que não tenho, mas tenho para aquilo que não me dá prazer. Huum...um flamenquito bem bailado, um desenho esgalhado num caderno velho de cigarro na mão, o fumo a entranhar nos cabelos e a sair do pulmão, cheio de cores que vão para o papel, pintado, raiado da aguarela da vista da tua janela.
Huum...o som da guitarra, os acordes a soar no ouvido, o dia inteiro a ouvi-la e a tua voz, que serão tão bom o nosso. E o registo, a fotografia? a adrenalina que se esvai num momento, num dia, em que o clic da maquina ecoa pelo ceu, e registo aquele momento tão dela, ou então tão teu...que bonito. É tanto o que podia transbordar para aqui, um coração cheio que lateja solto, esta inspitração que me assalta e me rouba a razão, tão bom,e deixá-la correr, ao som das teclas ou ao riscar da pena,o que interessa? Mas hoje( que o mal desta menina é este, o da fuga á realidade e ao cerne da questão), hoje falo da musica, de uma musica brutal, que me faz sangrar a alma como o flamenco e colar a barriga ás costa de emoção. Falo do Tango, essa musica, ritmo, dança...brutal. Argentino, coisa e tal, tinha de ser, pois claro, o genuíno como não há igual. É hoje que não me escapas," Y hablando argentino sé que me atraparás para siempre, entre calles y esquinas no caminadas por nosotros, pero soñadas, las que un dia habemos de caminar, en tu Buenos Aires querido". Isso, esse sotaque, essa imagem, é das tais, é um momento, um momento mais, que sai cá de dentro e me arrepia.
É mais um grito da alma, talvez só mais um, mas que no final do dia ou talvez da vida , de pança cheia, não arrependida e de preferencia ao teu lado para que comigo possas partilhar tudo isto( ainda que no final dos nossos dias) nos permita dizer com aquele sorriso de quem recorda uma memória doce...: "isto é que foi uma vida vivida!"
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