Há algumas pessoas, como eu, que raramente têm sossego quando estão sós e concentradas.Á parte das situações específicas em que o dever e as tarefas se impõem, nesses momentos as ideias surgem como um fogo de artificio , os projectos e coisas que gostaríamos de fazer urgem como necessidade primária e deixamos de ter sossego. Tanta coisa para fazer, tantas ideias para testar, tanta imagem e som a surgir ao mesmo tempo e tão escasso o tempo e a organização mental para processar toda esta parafernália de emoções abstractas que surgem quando menos esperamos. Há quem lhe chame loucura, há quem lhe chame inspiração. Não sei, sei que cada vez que me obrigo a parar de pensar e corto este fluir natural que em mim surge, é como se estivesse a desperdiçar uma fonte de imaginação que me permitiria fazer uma coisa que adoro e nos dias de hoje encontro muito pouco espaço e tempo para o fazer, que não aquele roubado ás minhas curtas horas de sono: Criar.E criar o quê? Quem tem verdadeiramente alma de artista, quem sente correr nas veias esse nervoso miudinho, não precisa de resposta a esta pergunta. A criação é a fotografia da mente do criador. A forma como assume corpo, pode variar, seja pela pintura, pelo desenho, através de uma escultura, ou qualquer tipo de arte plástica, por uma coreografia de dança, pela fotografia ou pela escrita.A criação é o momento através do qual se exorciza esse sentimento sem nome, essa inquietação e que aos olhos dos outros é normalmente uma obra de arte, um espectáculo ou apenas um devaneio. A beleza da arte, a meu ver, não se prende apenas com o sentido estético da obra ou no tentar imaginar o que será,quando é abstracta. A beleza é imaginar por onde deambulou a cabeça do artista para chegar ali, se terei sensibilidade ou percepção para o interpretar ou se intuitivamente e por nenhuma razão especial me fascina. Se a arte fosse tão definivel, se os seus padrões fossem regidos apenas pelos conceitos de estética, anatomia, cor, ou mesmo domínio da técnica seria impossível terem emergido alguns artistas. Se a dança e a musica fossem de forma paralela marcadas por este tipo de regras, não teria lugar a dança contemporanea ou a musica mais alternativa. Tudo isto porque a sensibilidade é unipessoal e intransmissivel. Mas criar não surge apenas como necessidade de por fim a essa sublimação do pensamento. Podemos criar apenas para nós, mas parte do exercício de criar é indissociável de uma certa vaidade, de um sentimento de expressão social que, por sua vez , depende da aceitação e se possível, aprovação de um outro, colectivo. Se no espectador existe, podemos arriscar, um certo voyeurismo, que se regozija ao consumir a arte, seja ela qual for, no lado oposto do artista existe algum exibicionismo envergonhado, que encontra , na arte em si mesma,o veículo como forma de se expor, de se despir e de mostrar a sua alma, sempre o objecto da sua criação.
É preciso saber a diferença entre ver e olhar.
E ter uma certa dose de loucura para me poder entender...Afinal,sou um bocadinho artista!
Sem comentários:
Enviar um comentário