Quando era miuda adorava diários. Tinham sempre cores pirosas, tipo cor de rosa clarinho, azul bebe ou verdinho menta, e cheiravam bem. Eram perfumados como as cartas dos namorados do século passado, mas eu achava o máximo. Realmente eu era uma alien do meu tempo. Adorava estas pirosices bota de elástico. Estrear um diário era um exercicio sublime. Escolhia a caneta,obrigatoriamente de tinta permanente, e desenhava a letra com esmero. este entusiasmo durava no máximo uma semana, ao fim da qual já pouco me importava com a caneta e esquecia-me de escrever, porque, sabe-se lá, tinha imensa coisa para fazer, e como criança que era, outras coisas mais engraçadas passavam a ser prioridade.no final de um periodo em que me esquecia dele, lá voltava a escrever com peso na consciencia, e fazia tipo uma sessão intensiva de vários dias, ou resumia todas umas férias. Claro que não é esse o objectivo do diário. O que eu não sabia ainda, é que serve exactamente para aquilo que hoje ainda gosto de fazer. Escrever, deixar-me levar, contar e partilhar a minha vida, as minhas historias, umas de rir, outras de chorar, as minhas inseguranças e medos e outros tantos episódios desta vida, que um dia já teve o nome de maravilhoso mundo de... Mas hoje penso que era uma delicia. esses diários, ainda que hoje sejam bocados esparsos sem continuidade de historia, são apetecíveis. Ler os sonhos que tinha, as coisas que aspirava ser, os episódios de vida que me preocupavam e nos quais hoje daria uma gargalhada, tornam-nos potenciais livros tabu, sobre a minha pessoa. Uma especie de resumo: como tudo começou nesta cabeça e como se transformou. quem os lê consegue perceber uma parte da minha complexa personalidade, e a densidade que tem. Hoje encontro neles poemas, versos, historias, e trato as minhas agendas, como adulta que sou, um pouco da mesma forma que os tratava na infancia. Contudo, o cheirinho perfumado a flores ou pó de talco, que sinto quando fecho os olhos, o fio de seda que marcava o dia, os desenhos em cada folha e a minha letrinha desenhada com tempo de criança, as dedicatorias que faziamos entre amigos no final de cada ano e das ferias, como se uma despedida final se tratasse, os autocolantes e desenhos,os "tôs" do bollicao, as graçolas e versos a rimar a martelo dos amigos e as fotos das estrelas, não estão lá...as melhores amigas e os apaixonados, as viagens de estudo...são outras!
Mas valeu a pena escrever um diário.É uma viagem de retorno a esses tempos e cada vez que os abro sinto que volto 20 anos atrás, como se nunca tivesse deixado de ser aquela menina de oculos e laçarote na cabeça, pura, apaixonada e deslumbrada por tudo o que o mundo tinha para lhe oferecer.
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