sexta-feira, 18 de março de 2011

Vida ao sabor do vento


É tão fácil deixarmo-nos levar...deixar que seja a intuição, o corpo e os cheiros a decidirem por nós, quando estamos com alguém, no dia a dia presente. Esquecermos o nosso lado intelectual e sermos somente intuitivos, animais, guiados apenas pelo instinto, não necessariamente primários, mas decididamente emotivos e guiados pelos 5 sentidos...
Quando existe uma sintonia assim entre dois seres, as palavras que ás vezes custam a sair, deixam de fazer falta e fundem-se num pensamento, num olhar que por si chega para aproximar dois corpos. As íris lêem-se, os lábios percorrem caminhos conhecidos e unem-se numa dança cuja coreografia pode mudar, mas os dois em uníssono, em conjugação e sintonia perfeita. Saõ relações do hoje, não do amanhã. Não há projectos de vida em comum. Não há sonhos a longo prazo. Só o agora, o já, porque é agora que apetece. Mas deixamo-nos levar, dia a dia, nesta ronha sexy e indolente de amar e ser amado, com acordares em negligée e cabelo desalinhado, lencois amarrotados e camas fofinhas, corpos quentes em conchinha e almofadas que cheiram a mistura dos perfumes e corpos. Parece tão pouco mas é tão bom todos os dias, como uma droga, que não nos traz vivencias reais nem futuro nem boas recordações, mas fisicamente dependemos dela, gozamos com ela, tiramos prazer dela.
E aqui estou eu, a trabalhar, mas a acebça lá, no edredon branco quentinho, e o teu corpo suado, e as fronhas amarrotadas. A luz entra no quarto por uma brecha de persiana que ficou aberta e franzo o sobrolho para fugir da luz, quero acordar devagar. Ainda oiço a tua respiração longa e profunda, que me acalma e envolve ao mesmo tempo. Se me concentro muito nela acaba por me excitar.Arrepiam-me as pontas dos teus dedos a passar na minha perna e aninho-me um pouco mais. Sinto-te quente, sinto-me segura, apetece-me dormir mais um bocado mas o desejo sobrepõe-se a tudo e começo a beijar-te devagarinho. Abraças-me preguiçoso ainda a dormir.Olho para ti e questiono-me se no teu sono tranquilo terás uma décima das preocupações que tenho, provavelmente não. Nós as mulheres temos cabeças complicadas e sofremos por antecipação. Mas naquele instante, apetecia-me entrar no teu subconciente e responder ás minhas perguntas. O que queres de mim, que fazemos aqui os dois. Para além do despojar de corpos que se atraiem com um magnetismo incrivel, para alem de conversas e piadas superficiais, de valores em comum, que temos nós? falta-nos consistencia, estrutura, esqueleto ou argamassa, falta-nos uma história, um projecto que nos envolva os dois com igual empenho.
Como sempre ficam as perguntas...acabo sempre mais perdida do que começo, mas como sou fraca de carne e de espírito, enrosco-me em ti, fecho os olhos e tento adiar o inadiável.Amanhã logo penso nisso.Viver Carpe Diem ou pensar no amanhã? Um dia chego a velha e ainda me revejo, tristemente, no somatório destes momentos fugazes, que me encheram o coração de paixão, mas os quais nao posso partilhar um dia com os meus netos, se os tiver...

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