quarta-feira, 24 de agosto de 2011

I had a dream...


Hoje acordei diferente. Há noites assim. sonhos que por serem tão familiares, tão deliciosos, tão á luz daquilo que desejariamos para nós, parecem reais.
Lisboa amanheceu com uma luz diferente. Vejo-a reflectida nas vidraças da janela que deixa vislumbrar um tejo timidamente escondido na boganvília fuchsia , que parece emoldurar a vista lá de fora. Os raios de sol entram aos poucos pelo quarto iluminando o chão do soalho luzidio e aquecendo-o. No chão e na mesa, há subtis rastos abandonados e sós, pistas que anunciam que a noite foi longa, desprovidos da energia que já se desvaneceu. A cama está vazia mas desfeita e não estás. Foi por isso um sonho. Fecho os olhos. vejo todo o filme , rápido a passar. A grande porta de madeira, pesada que se abre num rangido para nos deixar entrar.A imagem em ponto de fuga do fim do corredor e dos candeeiros suspensos que iluminavam as sombrias alas que apareciam perpendicularmente ao corredor principal. Os mármores de liós das colunas, erguidas até ao tecto de vitrais que reflectiam uma luz azulada e fria.

Lembro-me de percorrer o olhar por detalhes como o estuque trabalhado dos tectos e paredes, as luzes de uma casa com história, os lustres em cada uma das salas, o piano antigo em cima de um tapete de arraiolos, as cadeiras estofadas em veludos de cores...
Deste-me a mão. Após alguns momentos em que me susurravas em segredo subimos ao primeiro andar. Senti um misto de ansiedade, curiosidade e medo por não saber o que me esperava.Estava a entrar num filme e não me apercebera. Tudo aos meus olhos era desconhecido e desprovido de razão. Tudo parecia ter uma aura surreal e misteriosa, obrigando-me a cada momento a estar atenta e alerta. Buscava incessantemente uma interpretação para todos aqueles sinais: a porta que rangia, o senhor que parecia esperar-me e que desconhecia, o silencio ensurdecedor que ecoava pelas alas de pé direito alto, a ausencia de qualquer outra forma humana que não fosse a nossa.
Neste caminho em que me transportaste percorri vários cenários possiveis: Seria uma cena teatral arquitectada, uma surpresa que vinha aí? ou seria um hotel misterioso, ou uma sociedade secreta, de encontros e jogos perigosos de luxuria e sedução, onde após a noite passada não me lembraria de nada senão da loucura e da razão pela qual nada pode transpirar para fora já que todos guardamos os segredos uns dos outros, e como tal todos estamos presos pelas nossas fraquezas...?
Os caminhos eram labirinticos e não sabia onde estava. A cada passo que dava sentia o meu coração a latejar mais alto e mais rápido, num compasso acelerado. As mãos estavam humidas e o meu corpo dava-me claros sinais de que deveria estar alerta:A adrenalina estava a subir. A porta branca com o nome "Nadya" trouxe-me á imagem algo burlesco e lascivo e fez-me por uma hipótese remota em jogo... De repente, senti-me num palácio descrito á moda do Dan Brown. Por trás de uma imensa porta de vidro uma pia baptismal e úm pouco mais á frente uma capela. Cheirava a madeira. A talha dourada reflectia na capela todo o esplendor da sua nobreza singela, com um menino Jesus ao centro. Em cima um anjinho barroco suportava um pesado lustre de cristal, maior que as suas forças. Olhei para ti. Estavas denso e misterioso, não percebia porquê, mas o teu sorriso malandro denunciava que o melhor estava para vir em breve, e nada havia de mal para me preocupar.
Mais tranquila segui-te de novo e eis quando páras, olhas para mim e depois para uma porta dupla de madeira branca.
Abres-me a porta e avanço e nesse instante que pareece durar uma eternidade e em que já não tenho folego para abrandar o bater acelerado do meu coração que galopa alto e lateja no meu peito... retenho a respiração. (Se na infancia retemos tudo como esponjas, porque somos amplos de espaço de memória, a partir de certa idade, temos de fazer "delete" de alguns ficheiro para arranjar espaço para outros, que consideramos mais importantes.)
Naquele momentoem que os meus olhos fotografaram aquele cenário, aquela imagem foi lacrada na minha memória para sempre. Por mais que a tente descrever,a fim de a eternizar, creio que ficarão sempre intermináveis detalhes por descrever e ainda assim não chegará, nem por sombras a causar um décimo do impacto ou emoção que me fez, no limite daquela miragem, inundar os meus olhos de água.

Ao fundo o tejo , iluminado e salpicado de mil e uma luzes. O ar de Lisboa entrava no quarto suave e fresco para uma noite de agosto, mas a temperatura não podia ser melhor. As portadas, abertas de par em par anunciavam uma vista só para mim. As luzes do tejo, vistas da porta, juntavam-se ás velas da mesa, centrada entre os sofás. Baixei o meu ohar e percorri-a, rectangular de mármore negro, primorosamente posta, parando em cada detalhe. As velas iluminavam copos e flutes. Um jarro alto e os pratos, sob separadores de prata impecávelmente colocados. A comida tinha sido servida há momentos e perfumava subtilmente o ambiente. Aos pés da mesa, um cesto aberto com uma garrafa de champanhe, dava toque final. Um piqueninque a dois em plena Lisboa, com vista para o tejo e sob os tectos trabalhados de um palácio. Naquela noite fui uma princesa. A musica aquecia o ambiente não se sobrepondo ás nossas conversas. Brindámos, bebemos e jantámos. A sobremesa de frutos silvestres estava demasiado perfeita para ser devorada e foi deixada como elemento decorativo daquele cenário edílico.
Não sei quantas horas tem uma noite...no meu sonho seguramente muitas. Quanto tempo precisamos para conversar, susurrar, dançar, despir, vestir, chorar, fazer juras de amor eterno e pedir a Deus que nos abençoe? todo o tempo do mundo. Foi isso , esta noite ou este sonho, durou todo o tempo do mundo!
e depois, um suave despertar com sabor a saudade...e um sorriso que teima em não despontar

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